sexta-feira, 25 de março de 2011

Hora de Pensar

Um pouco mais sobre Censura

A censura no Brasil é tão velha quanto o próprio país, os primeiros registros mostram que tal ato de repressão começou no período colonial, ou seja, na colonização do Brasil por Portugal. Logo depois, no período monárquico, houve perseguição contra aqueles que eram contra a escravatura e outros regimes por parte do império. Mais a frente, no início do século XX, em meados dos anos 30, pessoas que tentavam se expressar contra o governo com sátiras e textos irônicos inicialmente através da literatura (no período modernista), os que praticavam o ato eram torturados e até mesmo mortos pelos militares. Em 1964, com o regime militar, a censura ficou ainda pior: toda e qualquer manifestação crítica era punida severamente, todos os civis deveriam se comportar como soldados em um grande quartel. Músicos e escritores foram perseguidos, torturados e até mesmo obrigados a abandonar o país para que algo pior não acontecesse. Todos os veículos de comunicação eram fiscalizados cuidadosamente pelo exército, antes de publicar qualquer texto (visual ou escrito), eram obrigados a adequá-los segundo as normas do regime, até então, no poder.
A história é clara, porém, não houve um fim: a ditadura militar acabou e a censura no país foi enfraquecida. Os veículos de comunicação continuaram a publicar o que julgavam necessário. O rádio noticiava fatos e a televisão mostrava o cotidiano. Censurar é muito mais do que impedir a comunicação, trata-se de ocultar a verdade daquele que busca a informação, sendo que, o objetivo visa sempre a conveniência de alguns. Tem-se como exemplo histórico os militares: censuravam músicas de Gilberto Gil e Chico Buarque pelo simples medo de despertar no povo o senso crítico. A lógica é simples: se TODOS os cidadãos de uma nação abrirem os olhos para uma causa e marcharem juntos por ela, nenhum poder político pode contê-los, em outras palavras, se todos pararem, o mesmo ocorrerá com o país, portanto, não seria interessante acordar uma horda de leões famintos.
Atualmente, século XXI, dizem que não existe mais censura, quem aborda o assunto é censurado: trata-se nada menos do que falta de credibilidade, fizeram com que acreditem que a censura MORREU com a ditadura, o que não é verdade: é possível sair às ruas para protestar, porém, o povo só poderá ir até onde o governo soltar a corda, ou seja, contanto que não atrapalhem o trabalho, podem gritar o quanto quiser.
Na televisão, rádio, internet é a mesma coisa: pessoas publicam livremente na internet, porém, se alguém poderoso não gostar de algo que leu (inclusive o que está escrito aqui), é certo que tudo será apagado na manhã seguinte. No rádio, instruções de como dar uma notícia estão ao lado do microfone ou na grudado em uma parede na frente do locutor: ele não deve falar demais. Na televisão, os âncoras de tele jornais são arduamente treinados antes da exibição, fora a edição de texto-notícia que dura, em média, três horas. Os videos e imagens exibidos na televisão mostram o quanto a edição se parece com a censura militar: um homem sendo entrevistado falando sobre algum político não fala mais do que duas orações, embora, na maioria das vezes, seja notada a continuação da conversa. A edição das entrevistas é ainda melhor: mostra-se apenas o que é mais coerente (dizem os jornalistas), mas coerente para quem? E se o povo não quiser coerência? Afinal, se nem mesmo nas ruas o povo leva a sério a linguagem culta. Talvez, neste caso, os colunistas e jornalistas escrevam tento em mente que o público alvo será sempre uma pessoa com nível textual comparado a um graduado em Letras.
Algo que parece não fazer sentido sobre censura é o caso dos desenhos animados: toda e qualquer animação para crianças não deve conter violência, pois, isto pode incitar, a médio e longo prazo, o menor a agir violentamente. Por isto, todos as atrações são exibidas com classificação por idade. Alguns canais da TV a Cabo como Cartoon Network e Nick ressaltam a cada início de um programa o seguinte: "Este programa foi EDITADO para se adequar a todos os públicos". Ou seja, emissoras CORTAM partes que não deveriam estar ali, entretanto, o resto da atração pode ser exibida sem problemas, por esta razão é que não faz sentido. Uma cena violenta em um desenho animado de luta é cortada, porém, o contexto não muda: o que foi cortado fica a cargo da imaginação da criança. Uma cena em que um personagem leva uma facada nas costas é removida, porém, uma criança de oito anos percebe que algo aconteceu, portanto, ao invés de imaginar uma faca, talvez ela imagine uma lança afiada que atravessou o corpo do personagem, visto que, não havia nada em suas costas. Em outras palavras, a edição, neste caso, pode ser prejudicial.
Evita-se violência nos desenhos mas não em novelas, acredita-se que a criança não tem interesse por novelas, portanto, não irá prestar atenção ao que acontece no contexto, porém, se uma personagem alvejar outro com um tiro, será um pouco difícil de não notar, sobretudo por conta da exaltação dos pais: os adultos se divertem com as novelas tanto quanto crianças o fazem com os desenhos, quando elas notam a exaltação dos pais, a curiosidade é despertada, então, elas buscam ficar no mesmo estado eufórico, é nesta parte que vêem o que "não deveriam".

Acredita-se, ainda, que a edição de desenhos animados visa preservar a inocência das crianças e evitar que se marginalizem no futuro. Nos anos 80 e 90, desenhos com alto teor de violência (Pica-Pau, Tom e Jerry) eram exibidos, mesmo assim, a maioria das crianças estudava mais além de apresentar bom comportamento, não é o que acontece hoje em dia: as crianças descarregam energia em colegas, professores, pais, irmãos, etc. A teoria é simples: com desenhos violentos, a criança poderia descarregar frustrações diante da TV, ou seja, seria possível que a criança "deixasse" que os personagens fizessem aquilo que não poderiam fazer na vida real, logicamente, isto funcionaria mediante a muito apoio por parte de pais e mestres. Os desenhos violentos costumavam apresentar também uma carga de moral, ou seja, aquele que praticava punição gratuitamente acabava se dando mal no final. O mesmo não ocorre com novelas, a criança acabava vendo a cena de violência mas não o desfecho ou a punição de quem a praticou, para piorar a situação, acaba assistindo a outra cena com o mesmo personagem "maldoso" sorrindo ou se divertindo, a assimilação da criança começa, então, a fazer conexões errôneas.

A censura não morreu com a ditadura, foi apenas maquiada como muitas outras coisas no Brasil, tem-se hoje  a edição, um nome mais "aceitável" para a sociedade. Com a internet, as pessoas se calaram mais a este respeito, pois, quem tem computador com acesso à internet, pode ver uma "faca nas costas de um personagem malvado" sem cortes, entretanto, quem quiser ver em carne e osso, basta dormir um pouco mais tarde para assistir novelas já que seu conteúdo é editado exclusivamente para o público passivo.

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