Um pouco mais sobre personalidade
É conveniente definir um termo antes de falar sobre ele, pois, não há como discutir com clareza algo que não se tem conhecimento. Segundo a definição psicológica, personalidade é a "individualidade" de uma pessoa, ou seja, um conjunto de características pessoais que cada pessoa dispõe e que é criada gradualmente conforme seu aprendizado dentro de uma sociedade, o intelecto contribui com a formação da personalidade, porém, em escala menor se comparado com a influência do outro. Algo que pode ser usado como termômetro para a individualidade de uma pessoa é a maturidade, ou seja, quanto mais madura, mais notáveis serão os indícios de personalidade.
Estando claro sua definição, percebe-se que todos os homens são capazes de criar sua personalidade conforme a relação que estabelecem no meio em que vivem, porém, não é bem o que acontece. Muitas pessoas encontram dificuldades em aceitarem a si mesmos e aos outros em sua natureza, logo, para não perderem um ou dois vínculos emocionais, acabam por mudarem a essência e, consequentemente, viverem fadados a seguir a razão alheia. Este fenômeno pode ser chamado de "perda de identidade", quando o indivíduo já não sabe mais o que é (ou como deveria ser).
Muito se fala em ser original, que é o principal indício da personalidade, por exemplo, uma pessoa diferente das outras, com seu próprio estilo, seja ele visual ou intelectual, porém, não é o que se vê: um corte de cabelo de uma atriz de novela é "copiado" por várias mulheres, o mesmo acontece com roupas e até mesmo com o discurso. O mais grave é que os indivíduos que evidenciam tais costumes sabem que não estão sendo originais e se contentam com isto, como se não bastasse, recebem admiração de outros que (ainda) não fizeram o mesmo, tudo isto é consequência da Moda.
Pode-se dizer que a moda se tornou a pior inimiga da personalidade, pois, por conta de uma imagem social, as pessoas descartam suas vontades, desejos e essência para que sigam uma legião comandada por um padrão de beleza. Modelos de roupas são lançados todos os anos com o intuito que ganhar popularidade no mundo da moda e na mídia televisiva, consequentemente, acabam atingindo a massa fazendo-os consumir o mesmo tipo de roupa. O mercado da moda é instável e qualquer novidade de vestuário pode durar somente algumas semanas independente da mão-de-obra dispensada, depois de ganhar o depreciado título "Fora-de-Moda", tudo o que resta é "guarda-roupa", talvez, com uma chance de voltar à vida conforme a vontade da mídia.
Moda e Personalidade são confundida de modo errôneo, não há como negar que individualidade não é o objetivo principal do modismo: a própria história mostra que um estilo não dura por muito tempo. No Brasil, personalidade é pouco usada, o que mais se vê é preocupação com o olhar alheio, sendo isto um costumo lamentável, o indivíduo acaba por olhar o outro e até a si mesmo da mesma forma, estabelecendo críticas infundáveis sobre aparência: "Não estou bem vestido, devo ficar como todos os outros do trabalho" - "Meu cabelo está inadequado para ir à festa" - "Adoro usar brincos, mas pega mal, o que irão pensar de mim?!". A preocupação pelo olhar do outro é doença, um mal que deveria ser tratado, porém, a sociedade já está muito mal acostumada, a maioria pensa mais em "não agredir" os olhos do outro do que no próprio conforto, portanto, criam uma personalidade camuflada com a vontade de terceiros.
Pequenos grupos sociais são provas cabais de que a personalidade é ignorada ou, pelo menos, agredida: um jovem altera seu jeito de ser, mesmo que seu verdadeiro "eu" esteja gritando por dentro, somente para ser aceito em uma determinada esfera, e assim continua o fluxo do rio. Os poucos que ousam nadar contra a maré são duramente expurgados pelas pessoas consideradas "normais": aqueles que tem muitos piercings ou tatuagens pelo corpo recebem olhares ameaçadores daqueles que estão andando na linha estabelecida pela sociedade, um homem que tem cabelo cumprido tem dificuldade de encontrar trabalho, uma calça justa num adolescente ou calça larga para uma jovem são motivos de agressões verbais, a lista continua. Tem-se então a purgação do diferente, a sociedade nega e afasta todos aqueles que não estão entre eles, talvez, por inveja ou admiração excessiva.
É possível aceitar que, no Brasil, não há muitas pessoas que tenham estilo próprio ou individualidade, pois, a sociedade toma medidas drásticas para que isto não ocorra, trata-se de uma reação em cadeira, é como se fosse um trem em movimento que sempre tem vaga para mais um que não quer ser diferente dos outros. Pode-se dizer que, muitas pessoas trocaram suas personalidade pela companhia de algumas pessoas, o que é um fato lamentável. É comum que adolescentes deixem para trás a individualidade para se socializarem com outros, porém, conforme o tempo se esvai, a identidade se perde e se tornam adultos que vivem em função de outros: assim como quando eram jovens, passam a seguir o mais importante/popular deixando-se em segundo plano. Pode-se dizer que a sociedade é como o mar, cardumes que nadam sincronizadamente na direção que lhes for mais conveniente, o peixe que não os seguir se quer será notado e ainda corre o risco de ser devorado por outros cardumes.
Personalidade se tem, ninguém pode ensinar como criá-la, porém, é possível forjá-la conforme o contato com o outro. Estilo próprio sem influência excessiva, algo original, algo novo, algo individual. Não é pecado mortal querer ser o que o livre arbítrio mandar.
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